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quinta-feira, 5 de março de 2015

Paciência tem limite! - Irritator challengeri Martill, Cruikshank, Frey, Small & Clarke, 1996


Já pararam para pensar no quão trabalhoso e até mesmo frustrante é exercer a profissão de paleontólogo? No Brasil, pode ser ainda pior, pois há pouca verba para pesquisas; fósseis extremamente fragmentados devido às más condições de preservação; material contrabandeado para o exterior por traficantes de fósseis; entre outros. Às vezes, é preciso desabafar! E, de um desabafo, nasceu o dinossauro brasileiro Irritator challengeri Martill, Cruikshank, Frey, Small & Clarke, 1996.

Irritator challengeri Martill, Cruikshank, Frey, Small & Clarke, 1996 (Tetanurae: Spinosauridae)

Etimologia:
Irritator = irritador, irritante.
challenger = Professor George Edward Challenger, personagem fictício criado por Sir Arthur Conan Doyle.
-i: indica que o epiteto específico homenageia uma pessoa do sexo masculino.

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Reconstituição de como seria Irritator challengeri. Fonte: Sergey Krasovskly.

Tudo o que se conhece desta espécie de Theropoda (dinossauro carnívoro) é um conjunto de restos parciais de seu crânio, encontrados em rochas com cerca de 100 milhões de anos de idade (período Cretáceo, idade Albiana) na Chapada do Araripe, estado do Ceará, Brasil. Além de fragmentado, o fóssil teve sua aparência adulterada pelos mineradores que o encontraram. Com o objetivo de torná-lo mais completo e atraente para a venda ilegal, os traficantes usaram gesso para “completar” o crânio do animal. Isso dificultou muito o trabalho dos paleontólogos que o estudaram, e daí veio a “irritação” que motivou a escolha deste nome genérico bizarro!

Já a designação da espécie, challengeri, é uma homenagem a um personagem ficcional: o Professor G. E. Challenger, cientista que figura em algumas obras de Sir Arhtur Conan Doyle – o criador de Sherlock Holmes. A mais famosa destas obras de ficção é The Lost World (O Mundo Perdido), publicada em 1912 e que narra descobertas de dinossauros vivos na região Amazônica.

De volta à vida real (ainda que pré-histórica), acredita-se que o “dino irritante” possuía focinho alongado com uma pequena crista óssea. Além disso, possuía dentes retos, pontiagudos e espaçados entre si, padrão típico de vertebrados que se alimentam de peixes. Isto faz sentido, já que as evidências indicam que a região onde foi encontrado era uma grande laguna costeira durante o Cretáceo. Suspeita-se que a espécie complementasse sua dieta com outros pequenos animais, pterossauros (animais voadores muito parecidos com dinossauros) e até mesmo carniça.

O restante da aparência de Irritator challengeri pode ser inferido por comparação com espécies aparentadas, das quais se conhecem esqueletos um pouco mais completos. Como todo Theropoda, a espécie provavelmente era bípede, com membros posteriores poderosos e cauda alongada. Sendo da família Spinosauridae, deveria ter pescoço relativamente longo, membros dianteiros robustos e com três dedos com garras afiadas. Talvez possuísse uma “vela” dorsal, estrutura formada por projeções das vértebras e recoberta de pele. Estima-se que Irritator challengeri teria cerca de 8 metros de comprimento, tamanho pequeno para um membro da família Spinosauridae. É possível que o crânio descoberto seja de um animal ainda jovem. Se for o caso, o tamanho adulto poderia ser mais de 50% maior do que o estimado!

Reconstituição de como seria Irritator challengeri. Fonte: pikshark.

Como volta e meia ocorre com espécies fósseis, Irritator challengeri teve uma história conturbada, que vai muito além das falsificações para o tráfico que ele sofreu! Um pouco antes de publicarem a descrição da espécie, D. M. Martill e seus colaboradores acreditavam se tratar de um fóssil de pterossauro, um grupo extremamente abundante na bacia do Araripe, mesmo local onde o espécime de Irritator challengeri foi descoberto. Após serem alertados pelos revisores do trabalho que seria um dinossauro carnívoro, erraram novamente sua classificação! Irritator challengeri foi colocado em um grupo mais derivado, que abrange muitas espécies emplumadas, como o famoso Velociraptor e as aves atuais.


Ainda em 1996, Alexander Kellner, um dos maiores nomes da Paleontologia nacional, concluiu que Irritator challengeri era um Spinosauridae na verdade, e estudos posteriores corroboraram tal classificação. Parte de um agrupamento mais basal, a família Spinosauridae abrange cerca de 10 espécies. O número não é exato, pois a Paleontologia de vertebrados é cheia de controvérsias. Há pouco consenso entre os pesquisadores sobre quais fósseis representam espécies válidas e quais são apenas variações individuais de uma mesma espécie, ou ainda quais permitem uma classificação precisa e quais são fragmentários demais para serem identificados com alguma segurança.

A história de Irritator challengeri e seus parentes é um ótimo exemplo de como a Ciência, incluindo a Taxonomia, está em constante mudança! Nenhum achado está livre de interpretações equivocadas. Às vezes, é necessária muita paciência por parte dos pesquisadores!




Referências:

Anelli, L. E. 2010. O guia completo dos dinossauros do Brasil. Ed. Peirópolis, São Paulo. 222 p.

Machado, E. B.; Kellner, E. W. A. 2005. Notas Sobre Spinosauridae (Theropoda, Dinosauria). Anuário do Instituto de Geociências – UFRJ, 28(1): 158-173.

Martill, D. M.; Cruickshank, A. R. I.; Frey, E.; Small, P. G.; Clarke, M. 1996. A new crested maniraptoran dinosaur from the Santana Formation (Lower Cretaceous) of Brazil. Journal of the Geological Society, 153(1): 5-8.
Sereno, P. C. et al. 1998. A Long-Snouted Predatory Dinosaur from Africa and the Evolution of Spinosaurids. Science, 282: 1298-1302.



Autoria: Julio A.B. Monsalvo

terça-feira, 3 de março de 2015

O caranguejo-vampiro de Java - Geosesarma dennerle Ng, Schubart & Lukhaup, 2015



Há diversos setores interessados em financiar pesquisas científicas voltadas para a descoberta de novas espécies. Isso porque muitas empresas se aproveitam das propriedades da fauna e flora para desenvolver alimentos, remédios e outros produtos. Mas e as empresas voltadas para o comércio de animais de estimação, também conhecidos pelo termo inglês pet? Pela primeira vez na história, uma empresa especializada em pets entrou no ramo das pesquisas científicas! A alemã Dennerle trabalha com enriquecimento de aquários e foi reconhecida pelo financiamento de pesquisa científica através de Geosesarma dennerle Ng, Schubart & Lukhaup, 2015.


Geosesarma dennerle Ng, Schubart & Lukhaup, 2015 (Brachyura: Sesarmidae)

Etimologia:
Geo = terra (do grego gê);
sesarma = relativo ao gênero Sesarma
dennerle = da empresa Dennerle;

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Os caranguejos do gênero Geosesarma são popularmente chamados de caranguejos-vampiros, por terem hábitos crepusculares e olhos amarelos que contrastam com as cores fortes do corpo. Como todos os demais caranguejos, possuem quatro pares de patas (também chamadas de dáctilos), um par de pinças, dois pares de antenas, um par de olhos compostos sustentados por hastes móveis (pedúnculos) e corpo fundido (cefalotórax). Geosesarma dennerle são identificados pela carapaça quadrada, ou seja, levemente mais larga do que longa e com laterais quase paralelas. Além disso, G. dennerle possui dorso bem definido e ventre densamente coberto por pequenos grãos arredondados. Esta espécie possui olhos amarelos e coloração do corpo viva, roxa ou púrpura amarronzada com uma mancha creme-amarelada na parte posterior. Os jovens possuem a coloração geral roxo-amarronzada, com manchas amarelas ou amarronzadas na parte anterior do dorso.

Geosesarma dennerle casal (esq. acima), jovem (dir. acima) e outros adultos (abaixo). Fonte: Ng et al. 2015.
Estes caranguejos são encontrados em encostas e pequenos vales, vivendo sob ou entre rochas, em locais com densa vegetação. Costumam escavar em solo solto próximo a riachos que cortam os vales de Java, na Indonésia. Sua dieta consiste, principalmente, em pequenos insetos terrestres, como gafanhotos, larvas de mosquitos Chironomidae e detritos vegetais.    

O gênero Geosesarma agrupa 53 espécies. Até o momento, sabe-se que G. dennerle ocorre apenas em Java, Indonésia, enquanto as outras espécies estão naturalmente presentes apenas no sudeste asiático. As espécies deste gênero têm sido cada vez mais comercializadas como animal de estimação para aquários na Europa, Ásia e Américas. De acordo com a população local, a população destas espécies vem diminuindo ao longo dos anos, indicio de que sua coleta não é sustentável e que sua popularidade no comércio torna necessário o desenvolvimento de um plano de manejo que inclua um programa controlado de captura.

Enquanto caranguejos de água doce estão avaliados como de pouca preocupação para a lista vermelha da fauna ameaçada da IUCN (documento detalhado sobre a conservação de espécies), os caranguejos terrestres Geosesarma ainda são deficientes em dados para uma avaliação completa sobre seu estado de conservação.


Referência:
Ng, P. K. L.; Schubart C. D.; Lukhaup, C. 2015. New Species of “Vampire Crabs” (Geosesarma De Man, 1892) from central Java, Indonesia, and The Identity of Sesarma (Geosesarma) nodulifera De Man, 1892 (Crustacea, Brachyura, Thoracotremata, Sesarmidae). Raffles Bulletin of Zoology, 63: 3-13.
IUCN. The IUCN red list of threatened species. Disponível em: <http://www.iucnredlist.org>.

Autoria: Suzane Melo