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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

O chupa cabra alado da Europa - Caprimulgus europaeus Linnaeus, 1758

Com o modo de vida conturbado atual, quase nunca nos atentamos ao fato de que inúmeros fatos na Ciência são na verdade herança de antigas e fascinantes crenças populares. O que você pensaria ao escutar de pessoas mais velhas que um passarinho alimenta-se de leite de cabra? Diante dos saberes atuais, isto soaria muito estranho! Mas, imagine-se andando por uma caprinocultura durante a noite até que, de repente, você vê uma avezinha mamando um dos animais. Bizarro é a palavra para esta cena! Entre aves noturnas, cabritos e chupa cabras, eis Caprimulgus europaeus Linnaeus, 1758.

Caprimulgus europaeus Linnaeus, 1758 (Caprimulgiformes: Caprimulgidae)

Etimologia:
Capri = cabra.
mulgus = (do Latim, mulgere) tirar leite.
europaeus = europeu ou da Europa.

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O noitibó-europeu (C. europaeus) é uma ave que mede entre 24,5 e 28 cm, com a coloração dorsal marrom-acinzentada listrada de castanho-escuro e com um “colar” pouco definido na nuca amarelo-pálido. A parte ventral é marrom-acinzentada com barras marrom. As cores de Caprimulgus europaeus facilitam sua camuflagem no ambiente. É possível distinguir o sexo na espécie, já que o macho possui manchas brancas nas asas, que são ausentes na fêmea. O noitibó é conhecido como bacurau ou curiango no Brasil.

Numa antiga crença europeia, acreditava-se que C. europaeus mamava cabras! Plínio, o Velho, foi um
O mito de Caprimulgus. Fonte: Freddy Pallinger 2015.
naturalista romano e autor da importante obraNaturalis Historia” que viveu entre 23 e 79 d.C. Segundo o autor, os “chupa-cabras” entravam nas barracas dos pastores e voavam até as tetas das cabras com o objetivo de sugar leite, o que machucava as tetas e as fazia perecer. Por sua vez, as cabras ordenhadas dessa maneira, ficavam gradualmente cegas. Ah! Veja como são os mitos!

A história não é verdadeira, mas uma confusão feita pelos pastores ao verem estas aves voando perto das cabras para capturar insetos durante a noite. Provavelmente pela forma e cores estranhas do noitibó-europeu, estas adoráveis criaturas eram culpadas pelas doenças que atingiam os rebanhos.

Em homenagem ao mito de Plínio, o naturalista Carolus Linnaeus (Lineu, para os mais íntimos) batizou a espécie de Caprimulgus europaeus. A publicação desta e de milhares de outras espécies está no livro Systema Naturae, de 1758. Mais ou menos 100 anos depois, o zoólogo e político irlandês Nicholas Aylward Vigors nomeou toda a família de pássaros similares de Caprimulgidae.

Os membros da família Caprimulgidae são insetívoros. Seus bicos são diminutos, mas suas bocas enormes, o que facilita a alimentação. Bacuraus ou curiangos não são capazes de realizar ecolocalização (localizar um objeto por ondas sonoras) e não possuem audição aguçada como suas companheiras noturnas, as corujas. Portanto, esses animais dependem de um mínimo de iluminação para caçar, fato que faz do crepúsculo e noites banhadas pela luz do luar, situações ideais para caçar.

É comum encontrar bacuraus em beiras de estrada, já que nelas esses animais fazem da luz emitida por iluminação pública ou por veículos, uma aliada na hora da caça. Há relatos de várias espécies dessa família caçando ao redor de queimadas noturnas no Brasil central. Também no Brasil, há relatos de uma espécie aparentada, Chordeiles nacunda (Vieillot, 1817), caçar durante o dia junto a andorinhões.

Caprimulgus europaeus jovem. Fonte: Norman Deans van Swelm.
Assim como outros bacuraus, Caprimulgus europaeus captura insetos aos montes. Os insetos grudam uns aos outros, de maneira que uma massa espessa é formada dentro do bico, impossibilitando a deglutição dos insetos de forma individual. Este processo facilita a captura de insetos, pois os já capturados não podem fugir e a ave não precisa parar a caçada para engolir cada inseto individualmente. Com isso, suas moelas podem armazenar centenas de insetos ao mesmo tempo. Isso mesmo, centenas!

Apesar do apetite voraz, não pense que esses seres não são seletivos com o que ingerem. Ao redor de suas narinas, olhos e na base de seus bicos, é possível ver a presença do que parece um bigodinho. Essas estruturas são as cerdas gustativas, penas especializadas utilizadas para aprimorar o paladar dos bacuraus, uma seleção pelo tato. Com um predador desses a solta, alguns insetos trataram de percorrer um caminho evolutivo que os protegem desses esfomeados. Alguns insetos produzem substâncias tóxicas que os tornam impalatáveis (de gosto ruim). Um dia da caça, outro do caçador!

O gênero Caprimulgus é o mais rico em número de espécies da família Caprimulgidae. Atualmente são 56, espalhadas por todos os continentes, sendo 19 na África, 12 na Ásia, 12 na América do Sul, 7 na América Central e ilhas do Caribe, 2 na América do Norte, 2 na Europa e 2 endêmicas de Madagascar. No Brasil, não ocorrem representantes deste gênero. Será que nossas cabras estão seguras?!

Existem seis subespécies reconhecidas de C. europaeus e elas se distribuem da seguinte forma:

C. e. europaeus Linnaeus, 1758 = norte e centro da Europa, Ásia central-setentrional até a região Leste do
Caprimulgus europaeus. Fonte: Ian H. Leach.
Lago Baikal (Rússia).
C. e. meridionalis E. J. O. Hartert, 1896 = noroeste do continente africano, leste da Península Ibérica, sul Europeu, Crimeia, Cáucaso, Ucrânia, noroeste do Irã e Mar Cáspio.
C. e. sarudnyi E. J. O. Hartert, 1912 = Cazaquistão, a partir do leste do Mar Cáspio, até o Quirguistão e as regiões montanhosas de Tarbagatai e Altai.
C. e. unwini A. O. Hume, 1871 = leste do Iraque e Irã até oeste da Cordilheira de Tien Shan (Ásia Central), além da região de Kashgar (China), Turcomenistão, Uzbequistão e Paquistão.
C. e. plumipes Przevalski, 1876 = leste de Tien Shan (China e Mongólia).
C. e. dementievi Stegmann, 1949 = sul da região montanhosa da Transbaikalia (Rússia) e nordeste da Mongólia. Migrante de inverno na África subsaariana.

Agora, toda vez que for beber aquele leite gelado, ou até mesmo quentinho com chocolate pela manhã, lembre-se do chupa-cabras e de que ele não é um monstro sugador de leite, mas uma incrível ave noturna que caça insetos nas noites de lua cheia!


Referências:

Del Hoyo, J.; Elliott, A.; Sargatal, J.; Christie, D. A. (Eds.). 2013. Caprimulgidae. Handbook of the Birds of the World. Disponível em: http://www.hbw.com/.
Jobling, J. A. 2010. The Helm Dictionary of Scientific Bird Names. London: Christopher Helm.
Sick, H. 2001. Ornitologia Brasileira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. Sigrist, T. 2009. Guia de Campo Avis Brasilis Avifauna Brasileira. Vinhedo: Avis Brasilis Editora.


Autoria: Priscilla Diniz

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