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quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Adeus ao rato de Brasília - Juscelinomys candango Moojen, 1965

O ex-presidente Juscelino Kubitschek é conhecido como o homem que colocou fim ao governo militar e trouxe o progresso econômico e industrial ao Brasil, com o famoso tema "Cinquenta anos em cinco". Ele foi também responsável pela idealização e transferência da capital federal do Rio de Janeiro para Brasília. Mas, o que pouca gente sabe é que este personagem histórico também inspirou o nome de um roedor brasileiro, Juscelinomys candango Moojen 1965.


Juscelinomys candango Moojen 1965 (Mammalia: Cricetidae)

Etimologia:
Juscelino = Juscelino Kubitschek.
mys = rato.
candango =  trabalhador imigrante em Brasília.

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"O rato trabalhador imigrante de Juscelino" Juscelinomys candango, conhecido popularmente como rato-candango, é um roedor endêmico do Cerrado. Foi descrito pelo pesquisador João Moojen de Oliveira e recebeu este nome como uma homenagem ao homem que idealizou e aos outros tantos que construíram a capital federal, local exclusivo de ocorrência da espécie.

A homenagem não se deu apenas pela situação histórica, mas também porque os oito tipos (tipo = espécime que gerou a descrição da espécie) foram encontrados por trabalhadores da construção civil (candangos) durante a construção de Brasília.

Jusceliomys candango. Fonte: J Moojen, 1965
Este rato possuiu tamanho médio, focinho longo, orelhas curtas e peludas e garras bem desenvolvidas para escavar. A pelagem da parte de cima (dorso) é marrom-alaranjada, com um traço escuro no meio. Já as laterais (flancos) são claras e definidas, como a parte de baixo (ventre), que tem cor marrom-amarelada. A cauda grossa característica é coberta de pelos e o diferencia de outros ratos selvagens.


A espécie vivia em campos de Cerrado com árvores esparsas. Costumava fazer tocas e se enterrar (ou seja, semi-fossorial) e alimentava-se de vegetais e formigas. Seus ninhos eram esféricos, subterrâneos e com trilhas de acesso. Apesar de ser chamado de candango, não há indícios de que tivesse hábito migratório.

Marcado para virar história e, infelizmente, apenas isso, o rato-candango foi visto unicamente durante sua descoberta no atual Jardim Zoológico de Brasília, Distrito Federal. Conforme critérios internacionais, passados 50 anos sem novo registro, a espécie deve ser considerada extinta. Ainda classificado como criticamente ameaçado em nível nacional, apenas aguarda revisão para ser considerado oficialmente extinto da face da terra. Embora para muitos a ideia de dar adeus a outros "ratos" de Brasília seja agradável, neste caso, foi uma grande perda. 

O gênero Juscelinomys conta com apenas mais duas espécies, J. huanchacae e J. guaporensis, descobertas em Santa Cruz, Bolívia. Ambas ocupam ambiente muito similar ao que era ocupado por J. candango.

Ironicamente, esta espécie homenageia justamente os responsáveis por sua extinção. A construção de Brasília e o crescimento urbano sem controle ou planejamento ambiental destruíram completamente o habitat do rato-candango.

A falta de consciência de uma época desapareceu com a vida de indivíduos pertencentes a uma espécie pouco estudada. Poderia o rato-candango ter respostas para tantas dúvidas e necessidades humanas atuais? Um estudo de impacto ambiental naquela época poderia ter mudado o rumo da história deste roedor e da capital federal? Juscelino teria mudado de ideia ao saber do futuro desta espécie? Nunca teremos respostas para estas perguntas!

Contudo, temos uma grande lição. O trabalho sério, com respeito e ética, de taxonomistas e diversos outros profissionais, bem como a seriedade na avaliação de impactos ambientais hoje pode mudar o rumo da história de milhares de seres, humanos ou não. Não se trata de salvar um rato, trata-se de achar respostas para uma vida melhor. Afinal, conhecimento é poder. 

Referências: 
Machado, A. B. M.; Martins, C. S.; Drummond, G. M. (Eds). 2005. Lista da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção: Incluindo as Espécie Quase Ameaçadas e Deficientes em Dados. Belo Horizonte: Fundação Biodiversitas.  
Reis, N. R.; Peracchi, A. L.; Pedro, W. A.; Lima, I. P. (Eds.). 2011. Mamíferos do Brasil. 2ª ed., Londrina: edição do autor.

Autoria: Bianca P. Vieira, 2013

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