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terça-feira, 28 de abril de 2015

Cubo nadador! - Ostracion cubicus (Linnaeus, 1758)



As formas geométricas estão presentes em uma diversidade de objetos e organismos. Não é difícil nos depararmos com animais de formatos que se enquadram quase perfeitamente nos padrões de objetos como círculos e quadrados. Dentre as espécies mais quadradas, ou melhor, cúbicas dos mares, está o peixe-cubo Ostracion cubicus (Linnaeus, 1758).

Ostracion cubicus (Linnaeus, 1758) (Tetraodontiformes: Ostraciidae)

Etimologia:
Ostracion = (do Grego, ostrakon), concha.
cubicus = cubo

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Ostracion cubicus. Fonte: Bianca Vieira 2013.
Os peixes da espécie Ostracion cubicus, também são conhecidos como peixe-caixa-amarela, foram descritos por Carolus Linnaeus em 1758. A espécie faz dos peixes ósseos da família Ostraciidae, com a maior parte do corpo recoberto por placas hexagonais. A organização destas placas em forma de cubo é bastante peculiar no reino animal.

Ostracion cubicus possui cor geralmente amarelo-ouro com manchas negras. Todavia, sua coloração também pode variar para o marrom ou azulado conforme o indivíduo. Além disso, as manchas negras diminuem à medida que os peixes envelhecem. Seu corpo é caracterizado por uma carapaça fechada e sem fenda, além de uma nadadeira caudal ventral com dez raios principais. Ostracion cubicus pode atingir o tamanho de até 45 cm de comprimento.

O peixe-caixa-amarela habita recifes de corais com profundidades que podem variar de 1 a 40m. Alimenta-se de uma variedade de organismos dos fundos oceânicos, como moluscos, crustáceos, poliquetas, algas e peixes menores. Possuem mandíbula forte e grande, com dez dentes superiores e oito dentes inferiores.

Peixes-caixa-amarela são hermafroditas protogínicos, ou seja, as gônadas femininas são as
Ostracion cubicus. Fonte: Zoo de Schönbrunn 2010.
primeiras a se formarem, porém, com o tempo, as gônadas se transformam em masculinas. Desta forma, pode-se dizer que indivíduos mais jovens são fêmeas e indivíduos mais velhos são machos. Ostracion cubicus é uma espécie solitária que se junta a outros indivíduos durante a época reprodutiva para formar haréns. Cada harém pode conter de 2 a 4 fêmeas para cada macho.

Ostracion cubicus vive em ambientes marinhos tropicais e temperados dos Oceanos Pacífico e Índico. Também é encontrado na costa africana do Oceano Atlântico, bem como no Mar Vermelho e Mar Mediterrâneo. O gênero Ostracion inclui 8 espécies. Além de O. cubicus, são reconhecidas: Ostracion cyanurus Rüppell, 1828; Ostracion immaculatus Temminck & Schlegel, 1850; Ostracion meleagris Shaw, 1796; Ostracion solorensis Bleeker, 1853; Ostracion trachys Randall, 1975; Ostracion whitleyi Fowler, 193; e Ostracion rhinorhynchos Bleeker, 1851.

Ostracion cubicus possui ampla distribuição e é frequentemente capturado para criação em aquário. O estado de conservação desta espécie ainda não foi avaliado para verificar se há ameaças significativas a suas populações.
           
Referências
BARICHE, M. First record of the cube boxfish Ostracion cubicus (Ostraciidae) and additional records of Champsodon vorax (Champsodontidae) from the Mediterranean. Aqua vol. 17 no. 4 - 15 October 2011.
EMILY, C. E. FishBase. Disponível em: <http://fishbase.sinica.edu.tw/summary/SpeciesSummary.php?ID=6555&AT=Yellow+boxfish>. Acesso em: 21 de abril 2015.
21 de abril 2015.
WORMS. Ostracion Linnaeus, 1758, 2015. Disponível em:<http://www.marinespecies.org/aphia.php?p=taxdetails&id=219911>. Acesso em: 21 de abril 2015.

 Autoria: Nayara Chaves

domingo, 19 de abril de 2015

Come on baby, light my fire! - Barbaturex morissoni Head, Gunnell, Holroyd, Hutchison & Ciochon, 2013



Jim Morrison, vocalista da banda The Doors, é conhecido também como Lizard King. O como só existe um rei para cada território, seu nome foi concedido também ao rei dos lagartos pré-históricos, Barbaturex morissoni Head, Gunnell, Holroyd, Hutchison & Ciochon, 2013.


Barbaturex morissoni Head, Gunnell, Holroyd, Hutchison & Ciochon, 2013 (Squamata: Acrodonta)

Etimologia:
Barbatu = barbado, referência a presença sulcos ventrais na mandíbula.
rex =  rei, referente ao seu grande tamanho.
morrisoni = referência a Jim Morrison, vocalista da banda The Doors.

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Fósseis de Barbaturex morissoni. Fonte: Head et al. 2013.

Barbaturex morissoni é uma espécie pré-histórica de lagarto extinta há milhões de anos. Seu formato lembra o de um iguana, com possivelmente cerca de 1 m de comprimento, do focinho ao ventre. O pesquisador Jason Head e seus colaboradores descreveram esta espécie com base em fósseis de arcada dentária encontrados na Formação Pondaung, em Mianmar, uma região famosa entre paleontólogos devido à diversidade de fósseis da fauna que viveu por volta de 37 milhões de anos atrás, no Eoceno. O gênero Barbaturex possui apenas a espécie B. morissoni.

Segundo os pesquisadores, o grupo filogeneticamente (com origem evolutiva comum) mais próximo de B. morissoni que ainda vive é o dos lagartos Uromastycinae, como Uromastyx aegyptia, encontrados no Oriente Médio e Ásia. Jason e sua equipe chegaram a tal conclusão após analisar características genéticas dos indivíduos, bem como a morfologia da dentição de cada fóssil. Os pesquisadores também concluíram que B. morissoni era herbívoro, com dieta complementada pelo consumo de invertebrados.


Uromastyx aegyptia, lagarto atual filogeneticamente
mais próximo de Barbaturex morissoni. Fonte: Tagung, 2007.
Barbaturex morissoni viveu em um ecossistema rico em mamíferos carnívoros e herbívoros, sendo maior do que a maioria dos mamíferos da época. Sabe-se que o Eoceno possuía clima mais quente do que o atual (temperaturas de 2°C a 5°C maiores do que a média atual), o que favoreceu a existência de lagartos herbívoros maiores do que os atuais. Isso aconteceu porque a digestão de plantas depende de um custo metabólico diretamente relacionado à temperatura do corpo. Lagartos dependem do ambiente para se aquecerem e uma dieta herbívora aumenta os gastos de energia e, conseuqentemente, a necessidade de temperaturas mais altas.


Reconstrução de Barbaturex morrisoni. Fonte: Angie Fox (NSMNH) 2013.

Referência
Head, J. J.; Gunnell, G. F.; Holroyd, P. A.; Hutchison, J. H.; Ciochon, R. L. 2013 Giant lizards occupied herbivorous mammalian ecospace during the Paleogene greenhouse in Southeast Asia. Proceedings of the Royal Society B, 280: 20130665.

Autoria: Suzane Melo

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Tem a cor amarela e espirra a água? Bob Esponja Calça Quadrada! - Spongiforma squarepantsii Desjardin, Peay & Bruns, 2011


Um dos lugares mais biodiversos do universo Nickelodeon é a Fenda do Biquíni, residência de Bob Esponja Calça Quadrada e a sua turma. O porífero mais querido do mundo tem como principal característica a sua calça quadrada (bem, na verdade, é retangular). Mas e se Bob Esponja não fosse uma esponja? O que ele seria? Bom, aparece que no mundo real, os cientistas acreditam que ele poderia ser um fungo! Apresento-lhes Spongiforma squarepantsii Desjardin, Peay & Bruns, 2011, o Bob Fungo Calça Quadrada.

Spongiforma squarepantsii Desjardin, Peay & Bruns, 2011 (Boletales: Boletacidae)

Etimologia:

Spongi = esponja.
forma = forma.
squarepantsi = Bob Esponja Calça Quadrada.
-i = radical indicativo de que o epíteto homenageia ser do sexo masculino.

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Spongiforma squarepantsii. Fonte: Desjardin et al. 2011
Descoberto pelos pesquisadores Dennis Desjardin, Kabir Peay e Thomas Bruns em 2011, o fungo Spongiforma squarepantsii possui de 30 a 50 mm de diâmetro e 20 a 30 mm de altura. Apesar da homenagem ao personagem Bob Esponja, S. squarepantsii é bastante diferente deste. O fungo tem formato globoso ou esférico, consistência flexível e coloração alaranjada. Para a identificação de fungos, muitas vezes o odor e o sabor são importantes. No caso de S. squarepantsii, há um leve odor de fruta mofada.

Mas se o fungo não lembra exatamente o personagem Bob Esponja, por que o nome? Segundo os pesquisadores, o formato do fungo lembra o personagem. Mas também os basidiósporos (esporos reprodutivos do fungo) lembram o formato da casa do Bob Esponja.

Basidiósporos de Spongiforma squarepantsii.
Fonte: Desjardin et al. 2011
Spongiforma squarepantsii foi encontrado durante um estudo sobre ectomicorrizas (micorrizas são associações entre fungos e raízes sem que o fungo penetre na raiz) na Ilha de Bornéu, na Malásia. Por ter o formato um tanto peculiar, sua classificação entre Ascomycota ou Basidiomycota era incerta. Entretanto, após análises em laboratório, foi confirmado como um Basidiomycota pertencente ao gênero Spongiforma.

O gênero Spongiforma, descoberto em 2009, possui apenas mais outra espécie encontrada na Tailândia, S. thailandica. Portanto, este gênero compreende somente duas espécies limitadas ao continente Asiático. Spongiforma squarepantsii difere de S. thailandica pelo formato de seus basidiósporos.

Spongiforma squarepantsii tem hábito solitário e vive na base de árvores da família Dipterocarpaceae. Por causa de seu odor, os pesquisadores acreditam que sua dispersão seja realizada por animais e, por tal motivo, seu fluxo genético (troca de genes entre indivíduos das populações) seria limitado à Ilha de Bornéu. De fato, Spongiforma squarepantsii é registrado somente nas florestas tropicais do Parque Nacional Lambir Hills, na Ilha de Bornéu.


Referências:
Desjardin, D. E., Binder, M., Roekring, S., Flegel, T. 2009. Spongiforma, a new genus of gasteroid boletes from Thailand. Fungal Diversity, 37: 1–8.
Desjardin, D. E., Peay, K. B., Bruns, T. D. 2011. Spongiforma squarepantsii, a new species of gasteroid bolete from Borneo. Mycologia, 103 (5): 1119–23.

Autoria: Rayanne F. Ayres

sábado, 4 de abril de 2015

Mitologia e golfinhos - Stenella clymene (Gray, 1846)



Apesar de muitos pensarem que a Ciência é uma antítese das antigas crenças e religiões, em inúmeros momentos o conhecimento científico e a mitologia andam juntos. Como já abordado nos textos sobre “O chupa cabra alado da Europa” e “Vampiro das profundezas”, muitas vezes os taxonomistas se baseiam em antigos mitos para nomear uma espécie. A mitologia grega, com incontáveis personagens, tramas e genealogias elaboradas, tem sido uma fonte inesgotável de inspiração para a Taxonomia. Em alguns casos, porém, a verdadeira história da espécie parece quase tão pitoresca quanto os mitos da Grécia Antiga! Este é o caso de Stenella clymene (Gray, 1846).

Stenella clymene (Gray, 1846) (Cetacea: Delphinidae)

Etimologia:
Sten = (do Grego, stenós) estreito.
ella = (do Latim, ellus)  pequeno.
clymene = ninfa da mitologia grega, e também notório, de destaque.

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Na mitologia grega, Clímene era uma das mais conhecidas Oceânides, ninfas do fundo do mar. Havia nada mais, nada menos do que 3.000 Oceânides, filhas todas dos titãs Oceano e Tétis! Pois é, e você aí achando que o Mr. Catra tem muitos filhos!!!

Clímene por sua vez também teve uma porção de descendentes, dos quais o mais famoso é provavelmente o herói Prometeu. Clímene é a patronize da fama e não há mamífero marinho mais famoso do que os golfinhos!

Stenella clymene. Fonte: Kate Sprogis 2011
Stenella clymene é um golfinho de porte médio, com cerca de 2 m de comprimento, corpo robusto enadadeiras relativamente pequenas. A coloração tem três tons, com manto dorsal escuro, barriga branca e uma faixa intermediária cinza-claro. Seu bico (nome dado ao focinho de alguns cetáceos) tem ponta escura e não é muito longo, motivo pelo qual ele também é chamado de golfinho-rotador-de-bico-curto. O nome remete ao golfinho-rotador (S. longirostris), espécie muito similar, conhecida no Brasil também como “o golfinho de Fernando de Noronha”. O termo rotador, por sua vez, faz referência ao comportamento de giros, ou seja, saltar da água rodopiando no eixo do próprio corpo, quase como um pião!

O golfinho-clímene é endêmico das regiões tropicais e subtropicais do Oceano Atlântico, incluindo o Brasil, e parece não ser comum. Vive geralmente em bandos pequenos, longe da costa, alimentando-se de lulas e pequenos peixes, inclusive durante a noite. O conhecimento disponível sobre suas populações é tão escasso que não se sabe se estão ou não ameaçadas de extinção!

A história de S. clymene tem mais similaridades com a mitologia grega do que se pensa. Algum tempo após sua descrição original pelo zoólogo britânico John Edward Gray no século XIX, S. clymene passou a ser considerada apenas uma subespécie de S. longirostris. Apenas na década de 1980 foi verificado realmente ser uma espécie distinta plena.

Stenella clymene. Fonte: NOAA, 2012
Em 2014, análises de DNA demostraram que S. clymene seria realmente um híbrido, e as espécies envolvidas nessa hibridação natural seriam S. longirostris e S. coeruleoalba (golfinho-estriado). Essa descoberta é um dos poucos casos conhecidos de “especiação híbrida” em mamíferos. Especiação híbrida significa que duas espécies distintas podem cruzar e ter descendentes férteis. É como se a mula, cruzamento do burro e do cavalo, não fosse estéril e pudesse ter descendentes com outras mulas. Apesar de já comprovada a existência da especiação híbrida, tal ideia vai contra a noção geral de que descendentes de animais híbridos são inviáveis.

Assim como os personagens mitológicos criados com partes de diversos seres, como os centauros, grifos e pégasos, Stenella clymene mostra que não é somente no mundo da fantasia que duas criaturas diferentes conseguem produzir descendentes! E que hibridação pode ser um mecanismo mais importante do que se pensava para a evolução de novas espécies.

Referências:

Amaral, R. A. et al. 2014. Hybrid speciation in a marine mammal: the clymene dolphin (Stenella clymene). PLoS One, 9(1): e83645.
Carwardine, M. 2000. Whales, dolphins and porpoises. Dorling Kindersley, Londres. 256 p.
Hetzel, B.; Lodi, L. 1993. Baleias, botos e golfinhos: guia de identificação para o Brasil. Nova Fronteira, Rio de Janeiro. 280 p. 

Nowak, R. M. 2003. Walker’s marine mammals of the world. The John Hopkins University Press, Baltimore. 264 p.

Autoria: Julio A. B. Monsalvo